Casas da Ribeira (Mação) – Relatos de uma caminhada Parte I

No céu ainda se notava alguma névoa, eram quase sete horas e o dia já havia despertado. As aves já se faziam ouvir, milheirinhas e verdilhões foram os primeiros interpretes que ouvi nesta manhã.

Depois de uma breve conversa com o meu amigo Gonçalo Lobato junto à Capela do Senhor dos Aflitos (Casas da Ribeira – Mação) partimos para uma caminhada incerta por caminhos inexistentes. Sinceramente para mim é a melhor forma de percorrer a paisagem.

 

 

Com a aldeia a ficar para trás no lado esquerdo do meu ombro, descemos em direcção à ribeira. Acho que quem por ali passe não fica indiferente ao branco da cal de um pequeno monumento no lado direito. Uma pequena construção em memória dos que ali morreram afogados ao tentar atravessar a ribeira neste local, antes de existir a velha ponte. A imagem do Senhor das Almas que ali encontramos já não é a original, a antiga era feita em bronze.

 

 

A ponte velha das Casas da Ribeira foi construída na década de 70 do século XVIII.  Por estes dias está a ser alvo de recuperação. Podemos notar pela cor das pedras que esta já precisava de uma mãozinha. As pedras mais claras são os remendos que foram acrescentados a esta velha edificação.

 

 

Depois de procurar nos meus arquivos, encontrei esta foto tirada em 2016. Notam-se bem as diferenças não!?

 

 

Percorro a ponte com a sensação de renovação, sempre conheci esta ponte “velha” como o nome que ela carrega. Debruço-me sobre as suas guardas, ali em baixo a água corre cristalina. É inverno, tirando o som das aves e da água, tudo o resto parece descansar. Estou ansioso para ver de novo estes campos verdejantes e cheios de flores e de outros movimentos.

 

 

Ali perto, na margem esquerda, a jusante da ponte está o moinho da ponte velha. Segundo o meu amigo Raúl Coluna os moinhos existentes em Casas da Ribeira naquele tempo não estavam preparados para moer trigo, por ali moía-se o milho.

Para moer o trigo a jornada era longa, passava o Caratão para ir moer o cereal ao Vale da Mua. Reparem que naqueles tempos os meios de transportes existentes seriam o burro ou o macho, em último caso a pé…

 

 

A montante desta velha ponte uns quilómetros mais a cima, ao fundo da buraca da moura existe um outro moinho, o moinho das hortas. Mas hoje o caminho é a descer! Pelo que não passei por lá.

Seguimos pelo lado direito da ribeira pois quis observar umas árvores que plantei por ali. Como não gosto de andar para trás e para a frente e precisávamos de passar para a outra margem, aproveitamos para atravessar num velho açude ali existente. Quando fechada esta represa fazia com que a água entrasse na levada que abasteceria o moinho seguinte…

 

 

Conheço bem este local, de ano para ano noto que as acácias veem a ocupar o lugar de outras espécies nativas desta nossa Ribeira de Eiras. Noutros tempos todos estes campos seriam cultivados, nos dias de hoje está tudo ao abandono.

Continuo a seguir a levada de água que me leva a um belo local para cultivo, por entre o arvoredo junto à ribeira algo grande se movimenta, provavelmente javalis.

 

 

Um velho regador que há muito perdeu o dono ali permanece, em cima de um muro de pedra seca, levantado há muitos anos atrás. Pena estes não me contarem histórias e vivências…

 

 

Oliveiras desmazeladas, pelo tempo, pelo fogo, pelo abandono… Um canto exuberante chama-me a atenção, é o canto da carriça, mesmo não a vendo aquele conjunto repetitivo de trinados não engana.

Guiados pelas levadas encontramos o moinho do meio. Segundo me contaram normalmente os moinhos eram de muitos donos, a parte de cada um era dividida por dias de trabalho e no final de cada campanha os vários donos juntavam-se para fazer as obras de manutenção, arranjar o telhado, muros ou mesmo fazer obras na levada. Tempos em que a cooperação fazia com que as coisas acontecessem.

 

 

Hoje é mais uma ruína… lá dentro as pedras que antes moíam o milho descansam num silêncio profundo. Agora reformadas vivem de outra forma, livres de movimento.

Também as telhas de meia cana descansam espalhadas pelo chão. Os dias de cooperação terminaram, hoje vive-se para ganhar dinheiro, para competir e por aqui noto bem a forma como tudo se perde. As pessoas abandonaram os campos em busca de melhor vida… será?

 

 

Tenho esperança que muito se recupere. Talvez os velhos caminhos e velhas construções, quem sabe o turismo traga percursos pedestres que mostrem o que se viveu nestas terras em tempos passados.

 

 

Depois de uma rápida observação concordamos seguir por um velho caminho um pouco acima da linha de água…

 

 

As bonitas flores amarelas que vejo na ribeira são traiçoeiras, originárias da Austrália estas grandes acácias abafam por completo todas as outras plantas abaixo das suas copas…

Desço a encosta até à ribeira, escondida no meio da erva encontro outra levada de água, desta vez parece ser construída com tijolo de burro.  Já sei que o moinho fundeiro estará uns metros mais abaixo.

 

 

Acho que este artigo já está a ficar enorme, vou fazer uma pausa. Vou continuar a escrever dentro de dias!

Ainda há muito para mostrar. Continuar a descer a ribeira, encontrar o lagar fundeiro e começar a subir a ribeira do Caratão… e encontrar um caminho de volta às Casas da Ribeira.

Obrigado pela leitura! Até breve!

Gady

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