Da Barca da Amieira a São José das Matas…

No Concelho de Mação existe um local ímpar, diferente de muitos outros locais no Concelho. Aqui, as diferenças saltam à vista, claramente.

Estou na Barca da Amieira, junto ao Tejo, a poucos quilómetros de São José das Matas.

Por estes montes acima o montado afirma-se de forma vincada. Há quem diga que este pedaço de terra deveria estar na outra margem, no Alentejo, mas não. Estamos na margem direita do rio Tejo, ou seja, a Norte. O “além Tejo” fica a Sul. Desta forma, “isto” é Mação!

A nível geológico encontramos por aqui zonas de granito e de xisto, e algum quartzito.

Sendo a floresta diferente também alguns dos seus habitantes diferem… A história por aqui está dispersa e às vezes escondida, mas pode ser encontrada em cada recanto que percorremos.

Desde a mais antiga cooperativa nacional, até ao velho batelão que descansa à sombra de um carvalho cerquinho. Batelão este que, acabou por dar o nome “Barca da Amieira” a este local junto ao rio.

Este batelão em ferro ligava este “pedaço de Alentejo” ao Alentejo, possibilitava o comércio com a margem sul, e permitia que as gentes da Amieira do Tejo tivessem acesso aos comboios. Subindo para cima deste batelão observo que é grande e imponente para a missão que desempenhava.

Transportar animais, gente e mercadorias era a sua missão. Ora vejam estas duas fotografias que a amiga Catarina Torres me cedeu.

Diz a história que nesta barca terá passado o corpo da Rainha Santa Isabel a caminho de Coimbra para o seu sepulto.

Enquanto rabiscava um pouco deste texto sentado num muro perto do Tejo, uma sombra passa por cima do meu caderno, olho e a poucos metros de mim um milhafre-preto cruza o céu pairando no ar…

Nesse instante o meu foco vira-se para as aves… outro milhafre preto anda por ali. Pelos “piados” que emitem, acredito que será um casal que estará a nidificar nesta zona.

Concentro-me um pouco a ouvir os sons, alguns são estranhos para mim, no entanto alguns não. Muitas são as aves que chilreiam na minha envolvência. Bicos-de-lacre, estorninhos, milheiras, gaios, fuinha-dos-juncos, alvéolas entre muitas outras.

Adoro estas paisagens… Podemos observar que a natureza aqui, ainda está longe da sua plenitude, nota-se bem as mazelas provocadas pelo fogo que por aqui passou…

Uma casa em ruínas…

O Tejo lá em baixo…

Estas zonas de montado passaram um mau bocado com o fogo de 2017, esta é sem dúvida, uma área a ser preservada.

Seria uma tristeza se o eucalipto dominasse estes campos como acontece em tantos outros locais bonitos deste Mação.

Nesta zona existe uma avifauna fantástica, destaco a cegonha-preta que em tempos nidificou por aqui em cima de um sobreiro. Não a observei desta vez, no entanto, enquanto caminhava um casal de cartaxos ficou incomodado com a minha presença, provavelmente têm o ninho por aqui… tão empenhados que estavam em distrair-me, que consegui fotografar ambos.

Ao longe avisto a Amieira do Tejo…

À minha passagem um trigueirão esvoaça do chão, voa até ao topo de uma figueira e fica atento aos meus movimentos, onde é que eu já vi isto!?

Bem me parecia que os tinha ouvido por ali, o cantar deles é algo parecido com… “Hí tem tanta raiz, hí tem tanta raiz…”

Bom! Não será bem assim, mas juro que faz lembrar…

Conta-se por aí, que certo dia, algumas aves juntaram-se e decidiram arrancar uma árvore…

“O Corvo aconselhou: cortem, coortem.

O Cartaxo: deita abaixo, deita abaixo, deita abaixo…

A Poupa: upa, upa, upa…

O Chapim: puxa, puxa, puxa…

A Gralha: escavem, escavem, escavem…

A Codorniz troçou: paspalhões, paspalhões, paspalhões…

O Trigueirão começou a desmoralizar: Hí tem tanta raiz, hí tem tanta raiz…

A Cotovia gritou do alto: quem te viu, quem te viu, quem te viu…

O Papa-figos ironizou: dá-lhe uma pírula, dá-lhe uma pírula…

Finalmente com a árvore ainda de pé o Cartaxo pôs fim à tentativa: o que está está, o que está, está….”

(Contos populares)

Enfim dizeres de um povo que também é meu!

Na entrada de uma propriedade uma data… 1-5-1948

Já lá vão 71 anos… e a paisagem está assim. Como seriam estes campos nesta data aqui inscrita? Quem terá ali gravado aquela data?

Conheço o local onde passo, é de um amigo, andámos por ali há uma semana a fazer uns trabalhos, e quando no início deste post escrevi que existem histórias escondidas, adequa-se perfeitamente ao que encontramos na sua propriedade, um abrigo que ele não conhecia.

E olhem que o Nuno conhece bem estas terras! Mas este abrigo estava coberto de vegetação, não éramos para limpar naquele local, no entanto com um pouco de teimosia minha, resolvemos remexer… interessante não?

Por ali encontro a erva-bicha Aristolochia paucinervis, esta é uma planta importante para a borboleta-carnaval. É nela que deposita os seus ovos.

No respiranatureza.com já escrevi em tempos uns artigos sobre esta borboleta, pode ler aqui:

https://respiranatureza.com/tag/borboleta-carnaval/

Nesta charca, improvisámos um local para atrair a andorinha-das-barreiras. Estas andorinhas nidificam em colónias que normalmente se encontram em taludes junto a margens de água. Optámos por escavar um pouco de margem de modo a fazer um local apetecível para esta espécie ou mesmo para abelharucos… abrimos buracos para tentar enganá-las e levá-las a pensar que ali já existe uma colónia. Fico ansioso para saber se vai resultar, mas vou ter de esperar cerca de um mês…

Também arborizámos a zona que envolve a charca, com algumas árvores que levei. Um lodão-bastardo, dois amieiros, dois sabugueiros, dois azereiros, um folhado, dois buxos, um ulmeiro, um salgueiro-negro, uma cerejeira-brava e um freixo. Espero que este local daqui a uns anos tenha um aspecto mais convidativo à fauna ali existente.

Na água em floração está uma planta aquática  Ranunculus peltatus, simples mas bonitas.

O mais engraçado não consegui fotografar, é que algo espreitava de dentro de água, pareciam pequenos submarinos, só via a cabeça à tona de água. Eram cágados, uma dezena ou duas, muito giro.

Quando retornava a casa já dentro da carrinha tiro as últimas fotos…

Para a próxima espero poder visitar a Cooperativa Agrícola das Matas, fundada a 21 de Abril de 1922, para vos falar um pouco da sua história. Esta é a cooperativa agrícola mais antiga de Portugal.

Existe muito mais para ver, mas o meu tempo é sempre curto, por hoje chega, amanhã logo se verá!

Gady

6 thoughts on “Da Barca da Amieira a São José das Matas…

  1. Obrigado pelo “passeio” e também pela boa recordação da velha barca que, na minha juventude, várias vezes utilizei para passar para o lado de lá. Nessa altura anos 60/70 viajava de comboio desde Lisboa, passava a noite junto ao rio, e ao pricipio da manhã chegava o barqueiro …

    Gostar

    • Então você é da Amieira do Tejo? Que mais recordações tem dessa altura? Como era aquela paisagem? De certo que havia mais gente que pernoitava por ali à espera de passar para a outra margem pela manhã…
      Obrigado pelo comentário.
      Abraço
      Gady

      Gostar

  2. Desde já agradeço,as fotos de zona que me viu crescer e que por momentos recordo passagens da minha juventude.Ainda bem que há pessoas que tem sensibilidade e conhecimento ,para desta forma dar a conhecer está maravilha da NATUREZA.

    Parabens.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.