A rara salamandra-lusitânica…

Há algumas semanas atrás, numa manhã de chuva muito miudinha que tardava em encharcar a roupa andava pelas serranias de Mação e para ser sincero, andava à procura de pedras para fazer um pequeno muro. Mas como sempre me acontece vou reparando nos pormenores alheios a muitos. Pequenos tesouros da nossa biodiversidade ibérica.

 

 

Apesar de esta terra ter sido devorada pelas chamas em 2017, pequenas bolsas verdes foram poupadas… e por entre urzes, estevas, sargaços e carquejas encontrei uma pequena população de tomilho bravo já raro nestas paisagens.

 

 

Thymus villosus, trata-se de uma das cerca de 13 espécies de tomilho que podemos encontrar em Portugal. É o segundo local onde encontro esta espécie no Concelho de Mação. Por estas bandas há quem o chame de “erva-das-azeitonas” pois é verdadeiramente útil para temperar as azeitonas de mesa.

Como estava perto de um local que gosto bastante (a Buraca da Moura, situada entre a ponte do Castelo e a aldeia de Casas da Ribeira), caminhei por entre os arbustos até lá. Quando reparei que algo se movimentava no chão… era um sapo-corredor Epidalea calamita. Que apesar de ser predominantemente nocturno nesse dia as condições ambientais estavam perfeitas para uma saída diurna.

 

 

Já escrevi tanto sobre este animal, como desta famosa buraca da moura no respiranatureza.com. Vejam aqui os seguintes artigos:

https://respiranatureza.com/2019/01/09/agil-e-robusto-o-sapo-corredor/

https://respiranatureza.com/2017/01/25/%EF%BB%BFa-buraca-da-moura/

https://respiranatureza.com/2019/03/31/humberto-delgado-general-sem-medo-em-macao/

https://respiranatureza.com/2018/06/04/de-volta/

 

Mas a maior surpresa estava guardada para uns quilómetros mais à frente, quando viro uma pedra e vejo algo raro… uma salamandra-lusitânica Chioglossa lusitanica! Uma preciosidade! Este animal é um endemismo ibérico apenas existente no noroeste da Península-ibérica e é muito dependente de habitats húmidos e saudáveis para sobreviver.

 

 

Por estas bandas é um animal raro e difícil de encontrar, é apenas a segunda vez que a encontro, distribui-se desde a parte ocidental das Astúrias, Galiza, noroeste de Portugal estendendo-se por zonas serranas do centro do país a norte do rio Tejo. Portanto encontrei a espécie no seu limite geográfico mais a sul. Embora o concelho de Mação esteja a ser “massacrado com fogos e alteração das paisagens com espécies exóticas ainda podemos encontrar raridades como esta. Fico contente na persistência natural da natureza.

 

 

Encontrei-a a cerca de 300 metros de altitude Depois de uma breve observação tive o cuidado de não lhe tocar e de a deixar abrigada não fosse acabar no bico de alguma ave mais astuta.

Através das fotos podemos observar que é um animal bonito e bastante fácil de diferenciar das restantes salamandras que encontramos por cá. Apresenta a cauda bastante longa. Destaco a cor do animal, é escuro, a parte dorsal e a cauda apresentam tons ocres aproximados do dourado, na zona do dorso esta mancha divide-se em duas bandas cortadas a negro. Também o seu brilho intenso se destaca tornando difícil uma fotografia fácil de tirar. Os olhos são grandes e salientes. Apresenta quatro dedos nos membros anteriores e cinco nos membros posteriores. Este exemplar media cerca de 14 cm.

 

 

Alguns dos factores que ameaçam esta espécie são: destruição de habitats quer sejam fogos, alteração de coberto vegetal, destruição de zonas ripícolas, poluição das linhas de água. Destruição de minas, fontes e outros nascentes que encontramos nas nossas serras. De destacar que o local onde observei pela primeira vez esta espécie ficava perto da Maxieira (Mação) ali existia um pequeno nascente com uma pequena charca na serra que hoje já não existe derivado à instalação de uma exploração de eucalipto.

 

Está incluída no Anexo II da Convenção de Berna e dos Anexos II e IV da Directiva Habitats, e é considerada uma espécie vulnerável à extinção (VU).

 

Referencias bibliográficas:

LOUREIRO, Armando; ALMEIDA, Nuno Ferrand; CARRETERO, Miguel A.; PAULO, Octávio S. (2008) – Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal. INOVA Artes Gráficas. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade

ARNOLD, E. N.; BURTON, J. A. (1985) – A Field Guide to the Reptiles and Amphibians of Britain and Europe. William Collins Sons & Co Ltd Glasgow, Great Britain.

MARAVALHAS, Ernestino, SOARES, Albano (2017) – Anfíbios e Repteis de Portugal / Amphibians and Reptiles of Portugal. Booky Publisher.

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